O novo ambientalismo de resultados e o seminário sobre o Código Florestal Brasileiro

O novo ambientalismo de resultados e o seminário sobre o Código Florestal

Antônio Ruas – Professor Universitário

A promoção de um debate aberto e esclarecedor na forma de seminário e com um legado claro, o manifesto final, não é “academicismo” de forma alguma, porque tem o sentido político do legado da informação visando um processo educativo permanente. Gramsci colocava o processo educativo como algo extremamente importante na atividade socialista e Paulo Freire resgatou o processo educativo dialogado como formação de atitudes revolucionárias nas classes populares.

A informação e mesmo o conflito teórico são fundamentais para a clareza do que fazer na prática. Um obreirismo simplificador de “ações sem muita discussão” é, neste contexto, claramente reducionista e potencialmente manipulador das massas. Lembra o discurso estalinista, de crítica à qualquer intelectualidade não engajada aos seus interesses e seguidista. No extremo desta prática, Pol Pot mandava eliminar professores e graduados quaisquer que fossem e Mao simplificava o marxismo com o livrinho vermelho, que era tudo o que as massas precisavam saber. No outro lado, correntes fascistas sempre rejeitaram o debate e o conflito de ideias, o que se observa concretamente ainda hoje com o social fascismo de vários regimes políticos ultra autoritários.

Mas, o que as correntes de debate e movimentos sobre questões ambientais têm a ver com isto? E o Código Florestal?

O fato é que podemos esperar do chamado ambientalismo neutro, o viés comum do movimento, uma redução do debate em geral, a sua despolitização (“somos apolíticos”, “somos apartidários”) e o descolamento das responsabilidades dos sistemas econômicos, vale dizer do capitalismo. No viés ambientalista comum, “cada um faz a sua parte” para salvar a natureza. Os segmentos, as classes, os interesses econômicos não contam e, muito menos, se discute quem salva o que e para que. Neste viés, empresários e capitalistas trocando commodities verdes não se diferenciam em absoluto de trabalhadores, povos tradicionais, excluídos da sociedade e seus aliados reivindicando o socialismo com a defesa dos recursos naturais para a sua geração e para as próximas e, além disto, respeitando a biodiversidade como valor em si. Os investimentos para o desenvolvimento “limpo” agradam estes ambientalistas, mesmo que sejam ações no mercado de carbono, compensações ambientais de quem devasta ou a compra de áreas naturais em biomas em perigo para vender logo ali. Tudo para o acúmulo de capital, ações no mercado de carbono, privatização da energia eólica ou solar, etc. Tudo que vai resultar mais adiante em miserabilidade e na mesma destruição da natureza, assim que as commodities sejam trocadas no mercado do capital. Ou seja, nada mais enganador do que esta posição e mesmo assim esta corrente do ambientalismo neutro não questiona e não questionará.

Como se isto não bastasse, aparece agora um aliado deste ambientalismo neutro e refém do capitalismo, um certo “obreirismo ambientalista” que coloca que “não temos que debater, temos que ir para a rua para ações de massa”. Ora, a quem serve este rebaixamento? Para alguma manifestação pública sem conteúdo político algum, para mostrar que estamos preocupados? Ora, para isto, dever-se-ia chamar os próprios promotores do processo capitalista e destrutivo que eles participarão, mesmo que seja para ridicularizar depois. Fantástico, irreal? Nada disto. Em recente manifestação contra a destruição da sede da AGAPAN, o próprio representante do poder executivo responsável pelo ato estava presente para se engajar. Aliás, disse claramente “estou aqui porque sou ambientalista!” Todos estes são “ambientalistas” se perguntados e, ao mesmo tempo, todos estes assinarão qualquer decreto ou mudança no Código Florestal que lhes dê lucro ou poder à sua classe, se tiverem oportunidade.

Assim, o ambientalismo neutro vai recebendo o apoio dos capitalistas e, agora, do “ambientalismo de resultados”, que é este: prático e direto ao ponto e às ruas.

Pergunta-se, também indo direto ao ponto: “às ruas a serviço de quem?”

 

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