A devastação da natureza diz respeito a interesses de classe!

 “Os ricos tentarão usar seu poder para dominar mais a terra, água e mais energia para si mesmos, e muitos vão dispor de meios violentos para fazê-lo, se necessários. Se a ganância vencer, a máquina do crescimento econômico depredará os recursos, deixará os pobres de lado e nos conduzirá a uma profunda crise social, política e econômica”.

(Jeffrey D. Sachs, professor de economia e diretor do Inst. Terra da     Univ. Columbia. É conselheiro especial da Sec. Geral das Nações Unidas para as Metas do Milênio).

– Estas palavras acima não são de autoria de nenhum militante revolucionário, crítico do capitalismo devastador ou mesmo de algum cientista cético escrevendo sobre o caos ambiental que se avizinha. Trata-se de apontar que o fulcro central dos problemas ambientais no planeta diz respeito aos efeitos  decorrentes da hegemonia capitalista , que impõe um modelo econômico e um padrão de produção associado a um decorrente comportamento de consumo, que são decisivos para, de um lado, enriquecer as grandes corporações mundiais e seus acionistas, e de outro, empobrecer e dizimar os recursos naturais, bem como massas populacionais acentuadamente nos continentes mais pobres, quer por falta de água potável, alimentos ou por doenças endêmicas ou por epidemias. É inerente ao capitalismo a ganância predatória, que por si é autodestrutiva e que não tem limites para as suas ações. Nos mercados capitalistas não transita nenhuma valoração de caráter ético. Tudo pode desde que seja para ganhar.
– Considera-se que é na natureza que se estabelece a matriz de todas as formas de vida no planeta, conformando um todo indissolúvel, onde não é admissível que qualquer das partes que a compõe se julgue proprietária das demais. A partir deste entendimento , criticamos as concepções antropocentristas que concebem a humanidade como a senhora do planeta, tendo por esta espécie de direito divino a possibilidade de utilizar os recursos naturais até a sua exaustão, colocando em risco o conjunto da vida sobre a terra. Como nossos ancestrais indígenas afirmamos: A natureza não nos pertence. Nós é que pertencemos a ela.Com perfeita consciência da limitação e finitude dos recursos naturais do planeta afirmamos que não é possível associar a luta por um futuro de felicidade ao desenvolvimento ilimitado das forças produtivas, com base nas matrizes vigentes desde a Revolução industrial, ou seja, ferro, aço, carvão e petróleo. Há que se rechaçar esses padrões de desenvolvimento, consumo e desperdício vigentes nos chamados países desenvolvidos que, movidos pela irracionalidade do lucro, devastam a natureza, promovem a apropriação privada de bens comuns da humanidade, estimulando o inchaço desordenado das metrópoles, mercantilizando a vida e difundindo uma cultura individualista, egoísta e avessa a qualquer tipo de solidariedade.
– Há que se denunciar a submissão da humanidade às ordenações do capital e o tipo de civilização por esta ordem produzida como uma ameaça para a vida humana e para a imensa maioria das formas de vidas conhecidas. Da mesma forma que afirmamos que as sociedades baseadas na dominação do capital são incompatíveis com o sonho de uma vida livre, feliz e em harmonia com a natureza.

TEMPOS DE CAOS

– Considerando uma população planetária de sete bilhões de pessoas e os atuais níveis de crescimento econômico, deduz-se que logo faltarão os recursos naturais necessários para a sobrevivência humana no planeta.
– Sobre o solo outrora com florestas temperadas os agricultores dos EEUU estão se utilizando cada vez mais de seus recursos hídricos localizados em seus aqüíferos, ficando esses super utilizados por falta de água de outra fonte. Hoje discutem  quão inapropriado foi cortar suas florestas temperadas para dar lugar à lavoura de grãos, pois que não plantam mais  em toda a propriedade, quer por impossibilidade de correção do solo, por falta de água ou mesmo por que o governo estadunidense lhes favorece criando subsídios sobre determinada produção.
– Na China, segundo país em produção de poluentes, as próprias autoridades reconhecem a existência de chuva ácida em pelo menos na metade de suas cidades ,provocadas por lançamentos de Dióxido de Enxofre na atmosfera, aumentando a acidez do solo e afetando a composição química de rios e lagos. Em algumas regiões já desertificadas, houve fuga em massa de populações, chamados de Refugiados Ambientais.
– Contrariando as teses de cientistas pagos pelos Mercados Predatórios, recentemente a NASA, organismo do governo dos EUA, portanto não recaindo sobre ela, NASA, nenhuma desconfiança de caráter político, foram analisados relatórios de seus satélites do ano de 1998 até 2009, onde constataram que os pólos glaciais estão derretendo muito mais rápido que o previsto, dando conta da celeridade do aquecimento global.
– Faz algum tempo que ondas de calor, secas e enchentes alternadas e outros desastres induzidos pelas mudanças climáticas, estão destruindo safras de alimentos pelo mundo afora, reduzindo o estoque de grãos nos mercados mundiais. São exemplos Rússia, Ucrânia e Austrália.
-Em muitas partes populosas do planeta, inclusive em regiões produtoras de grãos no nordeste da Índia, da China e Meio Oeste dos EUA os fazendeiros tem que cavar cada vez mais fundo para irrigar suas lavouras. Alguns poços estão próximos a exaustão, com uma salinidade tão alta, que parece que infiltram águas oceânicas no aqüífero.
– Um poder análogo de captura de recursos está sendo tentado na África. O aumento dos preços dos alimentos está levando a um aumento do preço das terras, enquanto políticos poderosos vendem a especuladores internacionais vastas fazendas, varrendo do mapa as agriculturas tradicionais e os direitos dos pequenos agricultores. Investidores estrangeiros esperam usar grandes fazendas mecanizadas para produzir para a exportação, deixando pouco ou nada para as populações locais.
– No velho continente Europeu verificam-se problemas que começam pela quase inexistência de florestas, sendo que as que ainda restam passam por constantes incêndios que acontecem nos períodos de abafamento e de escassez de chuva, aumentando o efeito estufa por causa do aumento da emissão de CO2, que em grande parte vem da combustão de combustíveis fósseis. Verifica-se igualmente a destruição da camada de ozônio estratosférico nos céus europeu, causado pela liberação de substâncias químicas conhecidas como cloro e bromofluorcarbonos. Os modelos climáticos predizem aumentos de cerca de 2°C relativamente aos níveis de 1990 até 2100, tendo como uma das conseqüência o aumento do nível do mar.
– O mais recente episódio de tragédia que assolou o mundo foi no Japão. Este país é reconhecido por duas particularidades. Primeiro por estar situado numa região de intensa movimentação de placas tectônicas, as quais ocasionam terremotos e por vezes
tsunamis. De outro lado, o Japão é reconhecido por ter um povo abnegado ao trabalho e a pesquisas científicas, principalmente na área da tecnologia. Pois bem. Por conta disso decantava-se o preparo daquele governo para enfrentar as tragédias imagináveis de acontecer. Mas não é que esqueceram o óbvio. Além de constituírem residências e plantações em áreas de risco no nordeste da ilha, instalaram uma usina nuclear (Fukushima) com quatro reatores que não resistiram as torrentes de lama, objetos pesados, equipamentos náuticos, todos lançados violentamente a terra, danificando o sistema de arrefecimento das turbinas. Deu no que deu. A tal energia limpa defendida pelos adoradores de usinas nucleares como geradora de energia mostrou sua letalidade como em Chernobyl na antiga URSS. As irradiações verificadas estão contaminando a água da rede de distribuição bem como os alimentos, se constituindo num problema ambiental muito sério que só o tempo dirá quais as conseqüências reais desse desastre.

NO BRASIL

-Por nossas terras temos um governo sustentado por um partido que até bem pouco tempo escrevia, falava e militava em defesa da natureza e do meio ambiente. Numa desbragada e insana batalha para construir um governo de “progresso” toda a história de lutas, incluindo a ambiental, foi enterrada sem solenidades. Nos oito anos do governo Lula houve um crescimento econômico que por si conta a sua história. Nunca na história desse país, banqueiros, industriais, grandes comerciantes e fazendeiros ganharam tanto dinheiro. A mesa dos endinheirados nunca esteve tão repleta. ao ponto de cair, como nunca,  migalhas da indignidade  para os debaixo. O custo ambiental do “desenvolvimento” brasileiro ainda não é conhecido na sua exata dimensão. O que sabemos é que  nunca o povo trabalhador desse país consumiu tanta quinquilharia e produtos tecnológicos descartáveis, sem contudo deixar de morar precariamente, e não ter educação e saúde satisfatórias, recebendo um salário mínimo vergonhoso. O prenúncio do governo Dilma é que tudo pode piorar. A presidenta gerente, muita elogiada pela imprensa, é a cara do desenvolvimentismo desenfreado, sendo uma tecnocrata que vive o mundo das obras faraônicas como é o caso da  de Belo Monte, no Rio Xingu, que tamanho crime ambiental não se constitui em preocupação,ao contrário, passando a ser uma obsessão para a “progressista” presidenta. Para o governo do desenvolvimentismo pouco interessa a agressão ambiental ali perpetrada, acabando com biomas riquíssimos que a natureza levou milhões de anos para construir. Ignora comunidades indígenas e ribeirinhas. A grande preocupação são as grandes empresas, as que constroem e aquelas que se beneficiarão de toda a energia ali gerada. Vale o mesmo para a transposição do Rio São Francisco, que vive com sérios problemas de poluição e com algumas espécies de peixes já extintas que, ao invés de ser revitalizado, será sangrado para liberar água de forma abundante para os senhores das grandes propriedades.
– A degradação da floresta amazônica verificada a partir do interesse de fazendeiros e grileiros em se apossar daquelas terras para atividades agropastoris está por exigir do governo federal uma ação mais eficaz, e para isso teria que alterar toda política de ocupação daquela região, criando equipes de fiscalização numerosa, em condições de autodefesa, paralisando todo tipo de extração da floresta a não ser aquela praticada pelos povos originários que sempre viveram e cuidaram da floresta e que são sistematicamente alvo dos criminosos depredadores.É nesta região em que sessenta por cento das residências não possui água encanada, apesar de estar localizada no local da maior bacia hidrográfica do mundo e sob um dos maiores aqüíferos em solo nacional.
– Para obter um marco legal na exploração da Floresta Amazônica o governo federal criou a Lei de Gestão das Florestas Públicas, que permite a exploração de madeiras e outras atividades econômicas. Esta lei outorga o uso das áreas públicas das florestas em até cinqüenta milhões de hectares à dita “exploração sustentável”, ao “turismo ecológico”, e finalmente à especulação com “madeira e produtos não madeireiros”. Isto é. A legalização da grilagem.
– Sobre os “comemorados” investimentos na monocultura do eucalipto e do pinus, verifica-se locais, principalmente no sul e  sudeste brasileiro, mais  o sul da Bahia, onde havia Mata Atlântica, que o cultivo dessa plantas exóticas se dá em larga escala, sem obedecer a sérios planos de manejo , que já acarretaram o desaparecimento de fontes de rios e riachos, tal o seu potencial predador e no consumo de água. Dizem os estudiosos em hidrologia que um eucalipto no Brasil que em cinco anos já atingiu o seu ponto de corte, consumindo milhares de litros de água por ano cada árvore, imaginem este consumo em uma área de quatro milhões de hectares que é a plantada no Brasil, tudo para ter matéria-prima da indústria do papel e da celulose. Atrás disso vem estudos já concluídos de utilização do eucalipto para elaboração de bio combustível e que nessa perspectiva as transnacionais insistem em burlar lei comprando imensidões de área para esse cultivo, em muitos casos se utilizando de “laranjas”.
– Outra exótica predadora que ocupa espaços de matas originárias e a espécie pinus que é considerada por estudiosos a mais agressiva invasora de todo o planeta. É uma espécie que toma os espaços da vegetação nativa e que não depende de animais para a sua polinização. Sua germinação se dá em qualquer tipo de solo, pois possui baixa exigência nutricional.
– A destruição do cerrado para plantio de soja é problema a essa altura sem retorno. O Brasil se orgulha de ser agroexportador de commodities “in natura” tendo isso grande correspondência na balança comercial brasileira. Não bastasse esse fato, temos a proliferação dessa oleaginosa na forma transgênica, com plena liberação do governo federal via CNTBIO, aumentando o lucro do agro exportador sem que haja estudos no âmbito da saúde pública. Isso tudo faz o governo refém do setor do agronegócio. A monocultura de exportação, turbinada na década de setenta pela Revolução Verde, que foi a entrada desmedida de produtos agroquímicos, contaminando alimentos, inclusive os hortifrutigranjeiros hoje consumidos em todas as cidades brasileiras.
– Para além desses venenos convencionais, alguns já proibidos na Europa e nos EUA, temos a concorrência desses com modalidade de transgênicos que não se restringe apenas a soja, sendo a CNTBIO, comissão que discute e aprova as pesquisas e lavouras transgênicas sempre de acordo com os interesses dos grandes fazendeiros e das empresas transnacionais da área química.
– A ofensiva do agronegócio, que age muitas vezes  na ilegalidade, chega ao cúmulo neste momento, de construírem um Relatório para a elaboração de novo Código Florestal, pelas mãos do deputado Aldo Rebelo, que além de perdoá-los das multas por desmatamento, os exime de recuperar as áreas devastadas com espécies originais,lhes concede um aumento da área a serem plantadas na beira de riachos e rios, bem como em encostas e topos de morros. Se a argumentação é de que isso beneficia os pequenos, que também cometeram infração com desmatamentos, cabe lembrar  do expediente que já existe em países da Europa que até um certo tamanho da propriedade, enquadrável como agricultura familiar, o governo deve remunerar estas famílias por serviços ambientais prestados. Os pequenos foram usados como bucha de canhão do PCdoB,  do agronegócio pela bancada governista na Câmara Federal. Agora no Senado Federal, o PL m030/2011 já se anuncia como aquilo que é ruim pode piorar.Os agentes dos grandes latifundiários estão acampados naquela casa legislativa fazendo seu trabalho sujo.
– Nos aglomerados urbanos, tão sujeitos a inundações, verifica-se em grande monta ausência quase absoluta de ações do poder público no que diz respeito a tratamentos de esgotos domésticos e industriais, controle e fiscalização das ocupações desordenadas em áreas de risco com a devida depredação de vegetação nativa. Não só os pobres que habitam essas áreas. Esses as ocupam por absoluta falta de outro local para morar, todavia, milionários agem da mesma forma procurando vistas indevassáveis, construindo lá suas mansões e pousadas de luxo, como se viu na região serrana do RJ.
– A maioria dos planos diretores das cidades médias e grandes brasileiras são discutidos e votados mediante o interesse de especuladores imobiliários. Esses têm mapeados todos os espaços de terras urbanas possíveis de transações comerciais. São Planos Diretores que não estabelece limites para a impermeabilização do solo, altura de prédios, sem levar em conta a relação de vizinhança, luz natural e passagem de ar.
– Como decorrência da irresponsabilidade do poder público temos grandes concentrações humanas em certas regiões, que resultará em superutilização dos serviços públicos, que em geral não há preparação para essa situação. Um dos aspectos consideráveis são os congestionamentos de tráfego tão comum na vida do homem urbano com drástico aumento de emissão de CO2 na natureza.
– Para criar um lastro de legalidade nas ações, em geral combinadas entre o ramo da construção civil, poderes executivos e legislativos, temos o Estatuto das Cidades, que concebem amplas possibilidades para esses acordos em prol da elaboração de planos diretores de acordo com o interesse desses “empreendedores”. Com esse Estatuto foi criada a lei federal 10.257 de 2001 que trata das Operações Urbanas Consorciadas que é “um conjunto de intervenções e medidas coordenadas pelo poder público municipal, com a participação de proprietários, moradores, usuários permanentes e investidores privados, com o objetivo de alcançar em uma área transformações urbanísticas estruturais, melhorias sociais e valorização ambiental”. O que acontece. O olhar do capitalista da construção civil se dirige para locais nas cidades, onde há condições de construir, principalmente condomínios horizontais ou mesmo prédios de apartamentos, onde restam sinais de natureza e vendê-la ao público com uma imensa margem de lucro, já que antes do projeto de construção pouco valia aquela área, que é comprada de pessoas humildes por uma ninharia que acabam comprando um barraco nos famosos aglomerados humanos tão conhecidos em quase todas as cidades.

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CONCLUSÃO
– O que foi levantado até aqui sobre os problemas ambientais mundiais e brasileiros são uma pequena mostra de uma drástica e trágica realidade ambiental ao qual estamos submetidos, já comprometendo seriamente a vida presente e futura em nosso planeta.
– Cabe salientar que há milhões de pessoas e entidades civis e movimentos sociais que reconhecem a agudeza da situação, pensa e faz o devido enfrentamento. Todavia não podemos errar no diagnóstico. Não podemos jogar para o indivíduo comum a responsabilidade sobre o comprometimento de vidas em nosso planeta. É preciso que identificamos, como abordamos no início do texto, que o que está em jogo são interesses de classe, onde os proprietários dos meios de produção, capitalistas e especuladores de todo o tipo , junto com políticos e governos burgueses irresponsáveis e corruptos são os responsáveis pela situação de caos ambiental que já passamos a viver .
– Temos muita gente bem intencionada, e disposta a lutar contra esse estado de coisas, que defende o meio ambiente, e que não tem noção que o capitalismo e sua voracidade gananciosa engendra todos esses males, pois  é de sua  genes a destruição na busca do lucro. Há que se buscar formas de diálogo com amplos setores da sociedade sobre este tema que diz respeito à vida. Nesse rumo de convencer as pessoas de quais as forças que estão produzindo esta situação de calamidade. Temos que mostrar a possibilidade de que “outro mundo é possível”, sem o capitalismo e seus malefícios. É  hora de discutir se queremos que nossas vidas continuem sendo empurradas para o caos total ou se queremos ser donos de nosso destino.

Autoria: José Romari Dutra de Fonseca
Fórum Gaúcho em Defesa do Código Florestal Brasileiro:
www.sosambiental.wordpress.com

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